Guia4Rodas e Viagens

Passei uns dois anos e um tanto da minha vida sendo pago pela Editora Abril para comer, beber e dormir...

Todo mundo acha que repórter do Guia4Rodas é um trabalho dos sonhos... É um trampo legal... mas... em vários problemas tb. Bacana, pq o Guia é uma das poucas, senão a única, publicação séria de turismo do Brasil. Não aceita jabá, faz testes anônimos e vai de verdade até um monte de lugares todo o ano... No meu tempo, não aceitava publicidade de hotéis e restaurantes tb, mas isso mudou com a crise da Abril.

O maior problema do trabalho é a solidão. Os repórteres fazem 5 viagens solitárias de +/- 28 dias por ano. Como acaba passando um ou dois dias em cada cidade não dá para criar laços com a população local... Existe até a síndrome da terceira semana, quando o cansaço e a saudade começam a bater mais forte em todo o repórter do guia. Além disso, não é fácil passar um mês aqui e outro fora, os laços antigos começam a se romper.

Outra imperfeição do "dream job" de muitos é a pressa. Durante a viagem, há milhões de coisas a serem feitas. São centenas as cachoeiras que eu fui, vi e voltei sem sequer dar um mergulho. Fiz todas as trilhas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros em um dia. Caminhei umas seis horas (para desespero do guia... hehehehe) e depois ainda fui até o Vale da Lua, por exemplo. Dias como esse não são raros.

O terceiro é comum a várias áreas do jornalismo: lidar com gente chata. Entretanto, a intensidade é muito maior no trabalho do Guia. Há um dado semi-estatístico pouco conhecido: 99% dos donos de hotéis e restaurantes são chatos. Alguns, além de chatos são picaretas, ficam oferecendo jabá ou se enrolam nas próprias mentiras para justificar aquele mofinho no teto do banheiro ou as latas de pomarola nas dispensas de cozinhas de restaurantes metidos. Depois que o Guia é publicado, surgem os "injustiçados". Aqueles que querem falar com o seu chefe, mandam cartas para o tio Civita, etc...

Finalmente, o menor dos problemas. Como vc pode imaginar, o repórter do Guia come em lugares muito bons e outros nem tanto... Até aí tudo bem. O que poucos imaginam: em alguns roteiros é inevitável comer várias vezes a mesma coisa. Em Fortaleza, por exemplo, comi lagosta no almoço e no jantar durante 4 dias seguidos. Pode não parecer ruim, mas enjoa. Tb tive que dormir em vários buracos (devidamente cortados ou rebaixados na classificação), mas isso eu não ligo... Sou/era mochileiro. Quando viajo/ava por minha conta, diária maior U$10 é/era um desperdício inaceitável.

Mas há muitas coisas muito legais no emprego. Conheci vários lugares, realidades diferentes e bati papo com muita gente interesante. Há um certo senso de aventura. De fazer algumas coisas que a maioria das pessoas acha perigoso ou difícil, mas que na realidade não são tão complicadas assim.

Por exemplo, fui o primeiro repórter do Guia a ir até o Jalapão. Achei que ia chegar lá e arrumar algum 4x4 para conhecer as atrações da região. Obviamente, não consegui. Resolvi ir de Gol mesmo. Depois de conversar com o pessoal de Ponte Alta do Tocantins e dar uma volta nas estradas próximas à cidade, conclui que daria para passar nos "areiões" (atoleiros de areia) se o carro estivesse razoavelmente embalado. Era o começo da época das chuvas.

Mas isso, não seria suficiente para correr o arrisco de atolar em uma estrada que, na época, chegava a ficar uma semana sem nenhum trânsito. Só encarei a coisa pq conheci o Seu José Bonifácio, um senhor negro, com mais 70 anos que nasceu sem as duas mãos. Apesar da deficiência e da idade, era a minha garantia de sobrevivência.

Seu José Bonifácio viveu quase toda a vida no meio do mato. Saia da casa dele uma vez por ano, caminhava 9 dias acompanhado por dois jumentos para comprar açúcar, sal e café em Ponte Alta do Tocantins. Com esse currículo, tinha certeza de que meu guia, mesmo no pior cenário, não ia deixar eu morrer de fome ou de sêde... Que outro trabalho combina essas coisas com refeições nos melhores restaurantes de São Paulo?

Comentários

Bacana!

Pô, China, até bateu uma invejinha (da boa :-) com essa história. Valeu, cara!
Abração,
Bicarato
http://www.alfarrabio.org

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